Meus livros e nada mais
- Se você gostou dele por que não tenta?
- Uh… imagine se ele realmente se interessasse por mim e começasse uma paquera...
- Adorei te ver.
- Eu também.
- Nossa, você por aqui?
- É, eu trabalho aqui.
- Não sabia. Que interessante!
- Oi!
- Olá.
- Nesta cidade tão grande a gente sempre se esbarra por aí. Engraçado, não é?
- Deve ser porque temos gostos parecidos.
- Pode ser. Você gosta de café expresso?
- Adoro. Viu? Que tal tomar um agora?
- Boa idéia.
- E daí para um cinema, um abraço, um jantar, um beijo. E depois? Depois, tudo correria bem, a gente teria mil assuntos, pois freqüentaríamos os mesmos lugares juntos. Também faríamos sacrifícios em nome da relação. Ele me acompanharia nas corridas de aventura. E eu o seguiria nos filmes de Eric Rohmer. Um belo dia decidiríamos viver juntos. E aí… que mora o problema. Ele é baixo, então se acostumaria fácil ao meu colchão tamanho padrão. Roupa, CDs, cremes e perfumes provavelmente caberiam bem no apartamento. Provavelmente não é de assistir futebol de domingo tomando cerveja e enchendo o carpete novo de casca de amendoim. Ok. Ele não deve ser do tipo que fica macambúzio à toa. Ou mal humorado. Talvez um pouco ensimesmado, mas nada exagerado.
- Então? Tudo parece ótimo.
- Espere, vou continuar.
- Trouxe tudo, Giba? Até que você tem pouca coisa.
- Faltam os livros.
- Ah, tudo bem, o escritório é só para isso.
- Uh.
- O que foi?
- Eu tenho uns cinco mil livros. Só caberia aqui se você tirasse os seus.
- Como assim? Eu não ocupo nem metade das quatro paredes de estantes. Tenho bastante livro, você sabe que adoro ler. Mas há tanto espaço...
- Não, não cabe. Você esquece que meus livros ocupam três cômodos na minha casa? Ei, por que você não vem morar comigo?
- Mas você mora muito longe. Dá uma hora do meu trabalho.
- E do meu também. Mas lá cabem os meus livros.
- Além disso, a casa fica sempre fechada, é úmida, eu morro de alergia.
- É, eu percebi que você espirra muito lá. Mas cabem os meus livros.
- Só tem um banheiro que toda hora quebra..
- Tem razão. Mas cabem os meus livros.
- Viu, viu? Melhor nem me animar. Com sorte, não vou mais encontrá-lo por aí e logo esqueço daquele jeitinho de ursinho panda dele. Nunca descobriremos quanto em comum temos e o namoro nem começará.
- É. Tem razão. Intelectual dá muito trabalho!
Retirado de : http://super.abril.com.br/super2/colunas/retratos
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E como dá...
Mas eu amo ser intelectual mesmo afastando o povo.
rsrsrs
Um comentário:
eu iria p/ essa casa, mas ah... deixa pra lá, vão ignorar isso mesmo e acobertar com qualquer outra desculpa...
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